LUCRO LIMPO

Como a fertirrigação auxilia na preservação do meio ambiente

e ainda dá retorno financeiro ao produtor rural

Poluição de nascentes e rios, contaminação do solo, reaproveitamento de água e produção sustentável são assuntos que há algum tempo não fazem parte apenas de estudos das universidades, teses de pesquisadores ou apelos de organizações preocupadas com o meio ambiente. Em Mato Grosso do Sul, quem lida diretamente com a produção agropecuária tem colocado em prática estratégias que aliam melhor qualidade da produção e maior lucro, com cada vez menos impacto ao meio ambiente.

Pode até parecer difícil, mas vários produtores vivenciam essa realidade no campo todos os dias. A reportagem visitou a Fazenda Deus Poderoso, localizada na área rural de Terenos, distante 30 quilômetros de Campo Grande. Por lá, pai e filho, Olegário Vanin, de 65 anos, e Juliano Amaral, de 41 anos, são exemplos de que a produção sustentável é possível e lucrativa.

Olegário e Juliano utilizam a fertirrigação para proteger o meio ambiente e produzir com mais qualidade na propriedade da família. A técnica consiste em transformar resíduos de bovinos, suínos e até de peixes que seriam descartados na natureza em biofertilizantes que, diluídos em água, são usados na irrigação de pastagem e lavouras.

 

Resíduo da limpeza do curral é tratado e se transforma em biofertilizante usado na irrigação das pastagens e lavouras

CICLO PERFEITO

A fertirrigação beneficia diretamente várias etapas do ciclo da produção. Evita contaminação de rios e solo - causada pelo despejo indiscriminado dos resíduos dos animais -, proporciona economia gerada pela produção limpa do biofertilizante e ainda reduz o consumo de água das propriedades - porque de uma vez só é possível irrigar as pastagens e lavouras e ainda nutrir as plantas.

Fechando o ciclo, o produtor ganha mais uma vez com o desenvolvimento acelerado das lavouras, que propicia colheita em menos tempo, ou a engorda mais rápida do gado que se alimentará de um pasto fertilizado com o resíduo que o próprio animal gerou.

Os produtores da Fazenda Poder de Deus explicam que tiveram o primeiro contato com a fertirrigação em 2016, quando procuravam orientações técnicas para melhorar a produção de leite da propriedade.

Veja abaixo o sistema de fertirrigação implantado na Fazenda Poder de Deus. Mova o mouse e aumente a tela para uma experiência completa.

Olegário conta que, depois de pedir ajuda ao Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar-MS), uma técnica visitou a propriedade e preparou um diagnóstico detalhado do que poderia ser colocado em prática para melhorar o desempenho do gado leiteiro, na época mais de 60 cabeças, e da produção como um todo.

“A técnica me apresentou a fertirrigação e disse que, com a estrutura que eu tinha, era ideal. Eu abracei a ideia, confiei nela e em poucas semanas já tínhamos o sistema todo instalado”, conta Olegário.  O produtor explica que precisou construir uma canaleta para ligar a área do curral a um tanque, para onde é destinado todo o resíduo com esterco bovino.

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Foi fácil até demais, furamos o tanque, colocamos a lona para proteger o solo, fizemos a canaleta, compramos um trator pequeno e a bomba chorumeira

Olegário Vanin, que conseguiu financiamento rural para viabilizar o sistema. Em menos de um mês tudo estava pronto e funcionando.

Juliano explica que, com a lavagem diária do curral, o esterco vai direto para o tanque e demora cerca de 60 dias para se transformar em biofertilizante. Assim que o adubo limpo fica pronto, o trator e a bomba chorumeira são conectados a uma mangueira que retira o fertilizante do tanque. Daí, é possível fertilizar a propriedade. Todo o processo conta também com o trabalho de Eva Dill, 56 anos, esposa de Olegário.

A família utiliza a fertirrigação para adubar plantação de mandioca, cana-de-açúcar e também o capim-napier, utilizado para produção de ração das vacas leiteiras. “Aqui a gente não desperdiça nada e a diferença é nítida. Fizemos até um teste de irrigar uma parte da plantação com a chorumeira e outra só com adubo industrializado. Onde a gente usou o biofertilizante do esterco da vaca, as plantas se desenvolveram muito mais. Tem gente que nem acredita, porque a evolução é muito grande”, afirma Juliano.

O produtor, a esposa e o filho já colhem os frutos de terem instalado o sistema. A produção de leite e da lavoura aumentou tanto que eles planejam construir um segundo tanque para conseguir captar ainda mais resíduos dos animais. “Eu só me arrependo de não ter conhecido esse sistema há uns 15 anos, porque com o que sei hoje, produzo muito mais, com menos esforço e preservando o meio ambiente”, diz Olegário.

O ciclo hidrológico e a agricultura irrigada

Confira na ilustração abaixo os caminhos percorridos pela água

na irrigação comum de propriedades rurais.

Fonte: SENIR/Ministério da Integração Nacional

informação valiosa

Outro produtor que também escolheu a fertirrigação para economizar água, produzir melhor e destinar corretamente os resíduos do gado leiteiro é Altair Alves Ferreira, de 49 anos. Há 11 anos ele tira o sustento da família da propriedade localizada no assentamento Lambari em Sidrolândia, distante 70 quilômetros de Campo Grande.

Foi em 2017 que Altair teve o primeiro contato com a fertirrigação. Em uma das visitas constantes de técnicos do Senar-MS, ele soube que poderia reduzir os impactos causados à natureza. Até então, o esterco bovino e o resíduo da lavagem da sala de ordenha eram descartados sem tratamento e a céu aberto, podendo contaminar rios e lençóis freáticos.

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Nos últimos anos minha preocupação com o meio ambiente aumentou, eu vi que precisava fazer alguma coisa para reduzir os impactos. Minha preocupação nem era o dinheiro, era mesmo procurar um jeito de economizar água e não poluir a natureza

Altair Alves Ferreira, produtor rural no assentamento Lambari em Sidrolândia

Depois de saber detalhes sobre as técnicas necessárias, Altair investiu R$ 5 mil na compra e instalação dos equipamentos para colocar a fertirrigação em prática na propriedade. O processo teve auxílio e supervisão do programa de Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) Mais Leite, do Senar-MS.

O sistema instalado por Altair é composto por dois tanques de concreto, para onde é destinado o esterco retirado do galpão onde ficam as vacas, e também uma bomba compressora usada na irrigação. Para que o resíduo dos animais se transforme em biofertilizantes - que depois são diluídos em água -, o esterco permanece pelo menos 15 dias nos tanques.

Mesmo com uma produção considerada de pequeno porte, com 20 vacas leiteiras, Altair conseguiu resultados até hoje comemorados. “Em seis meses a forrageira que adubei com resíduos das vacas teve melhora significativa. A qualidade e o crescimento são muito superiores a antes da fertirrigação”.

Além de um capim melhor para o gado leiteiro, Altair economiza com a compra da adubação, que não é mais restrita a fertilizantes industriais, e também utiliza menos água ao irrigar a forrageira em intervalos maiores. “Se algum produtor estiver em dúvida na implantação da fertirrigação e decidir por essa técnica, não vai se arrepender. Eu me arrependo só de ter demorado a usar aqui na minha terra”, completa.

eficiência dentro da porteira

Coordenador do programa Mais Leite do Senar-MS, que atende cerca de mil propriedades no Estado, Juliano Coelho explica que o produtor rural do ramo leiteiro que pretende poupar custos de produção e preservar o meio ambiente precisa “ser eficiente da porteira para dentro”.

Para Juliano, a fertirrigação é uma técnica que permite benefícios para propriedades de qualquer porte. “Para o produtor ter mais lucratividade é preciso baixar o custo da produção. Pelo fato de o leite ser uma commodity, não conseguimos mexer no preço de venda, mas o produtor consegue economizar na adubação e ter um pasto de maior qualidade. Assim ele terá mais volume de leite”, conta o especialista.

O coordenador explica que, inicialmente, o técnico do programa faz uma análise detalhada, uma espécie de "raio-x" da propriedade e do modo de produção. O objetivo é quantificar quais serão os benefícios em implantar o sistema de fertirrigação na área.

“Nós ajudamos o produtor a entender que os dejetos da sala de ordenha e de trato podem ser fundamentais para reduzir os custos com adubação. Ele só precisa tratar aquilo de maneira adequada”, afirma Juliano.

Os técnicos do programa Mais Leite também têm papel fundamental ao conscientizar alguns produtores que inicialmente se mostram resistentes ao novo investimento. Para Juliano, todo benefício gerado pela fertirrigação começa pela diminuição do impacto ambiental.

“Quando o técnico está na propriedade, ele mostra ao produtor para onde vão a água e os resíduos da sala de ordenha, por exemplo, depois da limpeza. Muita matéria orgânica vai parar em mananciais, gera a eutrofização - que é quando nutrientes alimentam bactérias - forma uma camada sobre a água do rio que neutraliza o oxigênio e mata a vida na água. A partir disso, o produtor não pensa mais só no leite, ele terá uma conscientização ambiental”, completa.

Economia compartilhada

O universo da fertirrigação apresentado até aqui pode ser ainda mais versátil porque a implantação dos sistemas não está limitada a iniciativas isoladas de produtores rurais. Tem gente do campo que criou até uma espécie de economia compartilhada, baseada na fertirrigação.

Engenheiro agrônomo da Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural (Agraer) que atua na região de Glória de Dourados, distante 279 quilômetros de Campo Grande, Cristian Carlos Felippi trabalha com agricultores familiares que têm parceria com grandes empresas.

As companhias do ramo da alimentação que fazem parte da parceria têm grandes granjas de suínos e destinam os resíduos dos animais para transformação em biofertilizantes, que depois são distribuídos para agricultores usarem na fertirrigação de suas áreas. Os sistemas para o reaproveitamento do resíduo são os mesmos instalados nas propriedades de Olegário e de Altair, que você viu no início desta reportagem. O que muda é o tamanho dos equipamentos e a capacidade de gerar biofertilizantes.

 

A soma da união de produtores rurais de Glória de Dourados, do conhecimento técnico e da parceria de grandes empresas resultou na fertirrigação e em bons resultados. (Crédito das imagens: Agraer)

Cristian explica que o dejeto usado no processo é originado na limpeza das baias dos animais. Água e esterco formam o chorume, que é encaminhado para lagoas de decantação. Ao final, o resultado é um material rico em nutrientes que fica à disposição dos agricultores familiares. O biofertilizante é levado em tratores para propriedades distantes até cinco quilômetros das granjas.

"A ração suína é bem balanceada com proteínas, carboidratos e elementos químicos como bório e zinco. O organismo do animal aproveita o que precisa e excreta o que não usa. As fezes e a água são ricamente nutridas com fósforo, potássio, cálcio e magnésio, só coisa boa que seria jogada fora", conta.

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Com o sistema fixo, tudo se transforma em biofertilizante e depois é aplicado de graça nas pequenas propriedades da região

Cristian Carlos Felippi, engenheiro agrônomo da Agraer e que atua na região de Glória de Dourados

O especialista ressalta que o mesmo modelo de reaproveitamento também é colocado em prática, em menor escala, com produtores de peixes. Resíduos dos animais que seriam descartados na natureza acabam se transformando em fertilizantes naturais que possibilitam irrigar lavouras e pastos.

Diferente de sistemas menores, colocar a fertirrigação em prática em grandes propriedades pode gerar altos custos ao produtor rural. No entanto, bancos oferecem linhas de financiamento especificamente voltadas para práticas sustentáveis na agropecuária.

FERTIRRIGAR É SÓ O COMEÇO

Consenso entre produtores e especialistas, a fertirrigação é apenas uma das estratégias que podem ser empregadas no campo para preservar água, diminuir impactos da atividade na natureza e ainda gerar mais lucros para quem depende da terra.

Um dos pesquisadores que estuda a fertirrigação em Mato Grosso do Sul, Ivan Bergier, da unidade Pantanal da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), explica que a técnica resolve um problema do produtor, que é o descarte do resíduo. Mas observa que há outros desafios a serem superados, o que depende da conscientização do homem do campo.

“O produtor que precisa irrigar seu solo sempre recorre ao aquífero. Então, a reutilização de um resíduo é sempre a melhor solução. A fertirrigação só melhora com o tempo. É um investimento que se paga em curto prazo, até três anos, e que traz benefícios cada vez mais visíveis. Existem diversas iniciativas, como captar água da chuva para limpeza e irrigação. Conhecimento técnico existe de sobra, basta conscientização e interesse do produtor para buscar isso”, defende Ivan.

Presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul), Maurício Saito compartilha do mesmo pensamento do pesquisador e afirma que o produtor rural é o principal aliado para a conservação ambiental no Brasil.

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É fato que os produtores rurais brasileiros se destacam cada vez mais na preservação do meio ambiente, inclusive investindo recursos próprios e abrindo mão de áreas produtivas, para reflorestar parcelas de suas propriedades

Maurício Saito, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul)

Saito ressalta, ainda, que os homens do campo têm produzido com responsabilidade e eficiência. Ao incorporar novas tecnologias à atividade produtiva, conseguem preservar recursos naturais.

“O trabalho desenvolvido pela Famasul é fundamental para que estes produtores mantenham-se informados, capacitados e preparados para continuar produzindo com eficiência e sustentabilidade, pois a preservação ambiental está vinculada ao próprio trabalho que desenvolvem diariamente”, completa o presidente.

 

Publicado em 17 DE OUTUBRO de 2018

 

 

 

 

 

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